sábado, 9 de fevereiro de 2008

A matriz portuguesa

Armada de Pedro Álvares Cabral - Acervo da Exposição


Na véspera do último dia, antes tarde do que nunca, debrucei-me esta tarde sobre a LUSA. Não, não se trata da Portuguesa de Desportos, nem de uma conhecida agência internacional de notícias. Falo da exposição LUSA - A Matriz Portuguesa, que o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio abriga desde 12 de outubro, e que eu, bem ao nosso jeitinho, quase perdia.

Foi mais do que vital vê-la, conhecer os meandros da formação da identidade portuguesa, nossa avozinha, para usar uma expressão do saudoso cronista Davi Nasser. Mas saí de lá com uma interrogação enorme boiando dentro de mim. A exposição, na qual embarcamos na Pré-História e saímos, refrescados, a ponto de pegar um barco às margens da Finisterra, vai muito além dos objetos arqueológicos, das ossadas, da multiplicidade de informações que atestam as presenças romana, islâmica, cristã e judaica, ou os avanços náuticos que levaram aos Descobrimentos. O seu principal ingrediente e fio condutor chama-se miscigenação. E aí é que eu diria que a LUSA nos fala ao útero - e não no ouvido, indecisa e fugidia, mas com a maior energia, em alto e bom som.

A interrogação que trouxe comigo tem raízes numa desconfiança que, com a LUSA, só se acirrou: de uma possível relação entre a adaptabilidade do brasileiro, traduzida pelo jeitinho, e um certo traço muito parecido que observo na maioria dos portugueses que conheço. Ainda outro dia conversava sobre isso com um amigo português, e - surpresa! - descobri que, em Portugal, o jeitinho atende pelo impronunciável nome de "desenrascanço".

Se há uma coisa que me irrita é ouvir uma criatura brasileira, mestiça-nascida-e-criada como todo mundo, falar mal do brasileiro. Reparem só como é engraçado: a pessoa nem se apercebe, mas parece que está falando de uma gente que não é a sua, parece não se incluir no contexto. É como se todo mundo tivesse um comportamento diferente do dela, "eu não", como se certas coisas fossem privilégio ou infortúnio dos outros, essa massa indistinta na qual, estranhamente, teimam em não se incluir.

- Brasileiro sempre deixa tudo para a última hora!

- Brasileiro joga papel no chão, mija nas paredes...

- Brasileiro desfigura as cidades, destrói tudo. Europeu não faz isso!

Ou então aquele inevitável:

- Isso aqui é Terceiro Mundo mesmo! - com ar de nojo.

E pior ainda:

- A gente é assim porque foi colonizado por português! Se fossem os ingleses, isso aqui seria diferente.

Vou, pois, respirar fundo e fingir que eu mesma não me ouvi repetir esse amontoado de lugares-comuns consagrados pela falta do que dizer. Vou começar logo pela última: sim, tudo teria sido diferente se não fossem os portugueses. De cara, a primeira diferença é que a gente não seria esse Brasil enorme, unificado e continental. Se não fosse D. João VI - aquele mesmo que é visto como um porco presunçoso, com coxas de frango por todos os bolsos - seríamos esquartejados e repartidos entre França, Holanda, Espanha e sabe Deus quem mais. As comemorações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa têm sido um momento excelente para revermos a história e nos reposicionarmos: português é burro nada, é esperto pra caramba. D. João VI conseguiu dar a volta em ninguém menos que Napoleão Bonaparte, gente! O que a princípio pareceria uma covardia de quase-monarca - vale lembrar que ele ainda era príncipe regente na época - foi uma estratégia de invejável competência. Ao vir para cá, o futuro rei incorporou o espírito do imenso Portugal que tinha à sua frente e tratou de trabalhar para que as pecinhas se encaixassem e nenhum esforço fosse perdido. Remodelou o país - na verdade o Rio, como um protótipo do país - e lançou as bases para a unificação e a inevitável independência. Tá certo que a incipiente e heróica indústria nacional foi sufocada em nome dos compromissos com as ditas nações amigas, mas o fato é que chegamos a algum lugar. E se fossem outros os colonizadores? Será que teríamos o mesmo destino? Duvido muito, dadas as características políticas do mundo de antão.

A LUSA mostrou bem como os portugueses souberam se misturar aos outros povos. Portugal era o Finisterra - ou seja, o fim do mundo mesmo, tal como era conhecido até aquela época. D'além mar ninguém passava, e portanto o além-mar não era mais do que uma conjectura poética. Foram os nossos hábeis ancestrais que resolveram enfrentá-lo para ver o que havia do outro lado. E com isso os "outros" também aprenderam a chegar. Mas isso foi depois, porque no início eram os lusitanos, depois vieram os romanos. A primeira convivência deu certo, os portugueses ali se misturando, aprendendo e tudo o mais. Depois vieram os iberos, os islâmicos, os judeus. A sociedade evoluiu a partir da troca de conhecimentos e da miscigenação racial também. Laços de sangue e história começaram a se formar. Em suma, o povo adaptou-se, sucessivas vezes, às transformações que foram acontecendo.

Alguém ainda tem dúvidas sobre a origem do nosso jeitinho? Não como pejorativo, pois seria um desrespeito, mas como manual de sobrevivência em tempos difusos? Não se enganem, brasileiros auto-excludentes: europeu também suja, também destrói, também erra. Da mesma forma, sabe acertar, ser competente, trabalhar e construir. Não existe raça sem valor, mas gente sem valores, e isso em todo lugar.

O momento dos Descobrimentos é uma das delícias dessa magnífica exposição: de forma econômica e sem qualquer mania de grandeza, damo-nos conta da importância vital das Grandes Navegações para que o mundo adquirisse a configuração que tem hoje. Esse passo enorme não foi uma joint-venture, um consórcio, uma fusão de multinacionais não, gente: foram eles mesmos, os portugueses que a nossa veia crítica encarcerou em piadas associadas à pouca inteligência. (Não estou dizendo que nunca ri, piada de português é irresistível, não há como negar.) A capacidade náutica, os mapas, os instrumentos e a tecnologia que eles desenvolveram foram muito além de uma revolução. Na verdade, foi a partida para a criação de um mundo que, separado, não existia: unido pelos caminhos do mar, passou a ter alma, nome, endereço e vida.

Se a nossa herança portuguesa é feita do bom e do ruim, isso é o que menos importa. Todo mundo é feito do bom e do ruim. O que vale mesmo é o que fica, e no baú desses tesouros tem a temperança para enfrentar dificuldades, a flexibilidade para aceitar o que é distinto e diverso pelo seu valor intrínseco, a percepção de que navegar sobre a inércia é preciso... Tanta, tanta coisa que nós, com a nossa alegria calorenta e espalhafatosa, tratamos de temperar e até devolver, sabendo alegrar os invernosos espíritos de muitos lusitanos que para cá vieram e nunca mais quiseram saber de outra vida. E de outros que vêm e vão, mas carregam um tantão de Brasil na alma.

A LUSA vai embora amanhã, mas na verdade não vai. Em cinco meses de presença entre nós, deixou as pistas para procurarmos dentro da gente as pegadas desse destino bonito e digno do maior orgulho. Somos um grande Portosil, eles um pequeno Brasigal, e estamos aí para discutir os temperos, adoramos padaria, eles adoram uma praia e uma mulata, e viva nós todos do jeito que somos, belos e contraditórios, feitos com sangue de toda cor.


3 comentários:

Sombr|A|rredia disse...

"O português tem um palmo de terra para nascer, mas o mundo inteiro para viver"

Padre António Vieira

Maurette disse...

É, minha cara,
verdades de mil seiscentos e sempre
que apenas mudam de verso:


"Ai esta terra ainda vai cumprir
seu ideal
ainda vai tornar-se um imenso Portugal!!!!"

Chico Buarque de Hollanda, in Calabar

Roberto Mauro disse...

Sem querer ser chato, nem cansativo, seus posts são tudo aquilo que a gente gosta de ler.
Parabens.....de novo.