sábado, 16 de fevereiro de 2008

E com vocês...



Jim Croce, I got a name (1973)

Em meados de 2006, quando começou a minha paixão instantânea pela música de Jorge Palma - que por via de conseqüência levou a uma intensa e permanente vivência das coisas portuguesas - dediquei-me a ouvir, sem parar, tudo o que me caía nas mãos da sua obra musical e poética. Ouvia para aprender, conhecer, explorar... e quanto mais ouvia, mais gostava.

Aos poucos fui compreendendo as suas referências, as doses calculadas (ou não) de lirismo e fado, folk'n'rock, jazz, blues, samba até. E suas canções começaram a tomar conta do meu espaço íntimo musical. Acho que sempre acontece isso quando a gente descobre um talento tão grande assim: a afinação do espírito só obedece àquela música por um bom tempo.

Mas nesse meu percorrer e estudar as composições do Jorge, um dia ouvi uma canção chamada "A estrada do sucesso", em que ele fala das glórias e desditas de quem entrega sua alma à arte de cantar. É um pouco o que Milton Nascimento exprime em sua antológica "Nos bailes da vida": todo artista tem que ir aonde o povo está...

Ao ouvir essa canção, senti um estalo no peito. E um estalo antigo mesmo. Naquela faixa especificamente, a voz do Jorge Palma se assemelhava muito à de um cantor folk americano que sempre apreciei: Jim Croce.

- Não conheço! - surpreendeu-se o próprio Jorge uma noite, quando conversávamos em Lisboa, no ano passado.

Jim Croce foi um sujeito singular: sincero, forte, cantava as coisas da sua tradição, as coisas de uma vida tipo road movie. Era um típico jovem da geração 70, que amava guitarras e era apaixonado pelo interior de seu país, com seus tipos curiosos e aquela violência visceral que é tão bem esmiuçada por Ang Lee no filme "Brokeback Mountain" (já lendário por todos os motivos, inclusive a recente e trágica morte do talentoso Heath Ledger, um dos protagonistas).

Nascido em 1943, Croce fez bicos - perdão, biscates - em praticamente todas as profissões antes de entregar-se à música; casou-se em 1966, teve um filho em 1971 e morreu tragicamente em 1973, na queda de um avião, após um show. Viveu apenas 30 anos, mas sua música deixou marcas definitivas em quem quer que a tenha ouvido.

Vim a conhecê-lo postumamente, em 1975, quando fazia intercâmbio nos EUA. Lembro que comprei um disco cuja capa era a comovente fotografia do filho anda pequeno, brincando com o chapéu de cowboy do pai. Mesmo não sendo uma admiradora tão ardorosa assim do folk'n'rock, a sua música me tocou. Até hoje tenho o vinil, por sinal em perfeito estado e passível de ser reproduzido em meu toca-discos (sim, você ouviu direito) Sony, uma herança que mandei reconstituir peça por peça e que hoje é um tesouro razoavelmente cobiçado. E não admira, pois apesar do cd e das revoluções tecnológicas por que a música tem passado, a qualidade do som do vinil é realmente insuperável.

Bem, a voz de Jim Croce estava na alma - e bateu na memória no exato instante em que ouvi "A estrada do sucesso". Não digo que as vozes sejam sempre parecidas, ou que a música do Jorge tenha alguma relação com a do Jim; no entanto, nessa canção especificamente, o timbre e a entonação do Jorge me trouxeram à mente alguns momentos da lendária I got a name, que apresento acima, num vídeo que acabo de encontrar, quase por acaso, nessa fonte espetacular de atmosferas e recordações que é o YouTube.

Com vocês, portanto, o Jim Croce que ficou no meu coração, com a versão original dessa canção que foi um dos seus maiores sucessos. O Jim que faz lembrar o Jorge que faz lembrar (às vezes) o Jim... e assim sucessivamente.

3 comentários:

Sombr|A|rredia disse...

hmmm
ambos os nomes começam por J
:)


Bj *

Anônimo disse...

Só uma pequena coisa, num blogue sobre portugal e portugueses nunca se diz que alguém faz bicos :), por cá fazem-se biscates (também se fazem bicos, mas acho que não era a esses que te referias)

Maurette disse...

Caro anônimo, agradeço a observação... já me esquecia desse pequeno detalhe :))) Referia-me, claro, a biscates, por cá as palavras são sinônimas... :)
Ontem aprendi mais uma, fantástica; aos povos que vivem mudando de um lugar a outro, não se fixam à terra, dá-se o nome de "nômades". Nunca poderia imaginar que, aí na terrinha, são chamados "nómadas" :)))... Achei muito engraçado e fiquei a pensar se a palavra de vocês seria comum aos dois géneros ou feminina. Na segunda hipótese, dir-se-ia uma jovem "nómada" e um senhor "nómado"... E além do mais com acento agudo, pois vocês pronunciam esse "o" aberto! É um eterno aprender e entreter-se com essas deliciosas diferenças...
Obrigada :))), apareça sempre