terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Jeitos e maneiras de ver o amor

Fernando Alvim

Outro dia a minha amiga Silvia, uma portuguesa que viveu dois anos no Brasil e voltou recentemente à terrinha, resolveu escrever no blog que partilhamos uma crónica sobre um assunto que dá panos pra manga: as diferenças na forma como os brasileiros e portugueses vêem - e vivem - o amor.
Gostei do tema. Pensei no comentário que ia fazer, num possível artigo que poderia talvez escrever... mas não saiu nada. O tempo passou e a história ficou meio hibernada até melhor ocasião.
Pois eis que de repente, no último domingo, deparo-me com dois artigos deliciosos de um português, mais precisamente o jornalista e comediante Fernando Alvim, que ajudam a apimentar essas filosofias amorosas transatlânticas.
E tomo a liberdade de reproduzi-los aqui.
Acho importante lê-los na ordem; um leva ao outro de uma forma suave e, ao mesmo tempo, contundente. Mais interessante ainda é o fato de terem sido escritos por um homem, e português. Primeiro porque o homem e a mulher não poderiam ser mais diferentes, mesmo dentro de uma mesma cultura, no que respeita ao amor. E segundo porque os homens portugueses têm uma (justificada?) fama de serem machistas, fechados, mal resolvidos. Alto lá, gente, não que eu esteja aqui a generalizar, falo apenas da fama. E as queixas vêm tanto das tugas quanto das brasucas (por favor, com "s"). No Orkut, site de relacionamento de maioria brasileira, conheci uma comunidade chamada "Eu amo um homem português", que por incrível que pareça tem mais de 700 membros, na maioria brasileiras que gostam, gostaram ou querem gostar dalgum gajo de mavioso sotaque. (As exceções masculinas que encontrei foram um rapaz gay procurando namorado e um português nada gay querendo namorar uma brasileira). E lá as queixas são mesmo muitas!
Mas vá lá, diferenças à parte, os artigos do Fernando Alvim chamam a atenção justamente por terem um ponto de vista quase feminino, por trasmitirem um sentir diferenciado e, na minha opinião, mais justo para com as dores-de-cotovelo que todos nós - mulheres e homens, brasileiros ou portugueses - já tivemos, temos ou podemos vir a ter na vida.
Que venha, pois, o Fernando Alvim! E por inspiração deste, podem aguardar novidades nas próximas visitas a esse Portugal.

Texto I - Como esquecer alguém em cinco minutos ou talvez mais um bocadinho

Fernando Alvim - 7/10/2007

Antes de tudo, há que reconhecer que este poderia ser um belo nome para um daqueles livros que as pessoas oferecem umas às outras apenas e só pelo título e que usualmente se encontram em qualquer bomba de gasolina, no corredor do fundo, lado esquerdo, junto aos jornais. Não interessa o autor, nem se alguma vez se leu alguma coisa, nem se os críticos do mil folhas falaram bem, o que importa mesmo, é a mensagem que o título oferece a quem o recebe. E se depois lá dentro, nas páginas que se refugiam na capa, o conteúdo não for grande coisa, isso de nada importa. Entrega-se o livrinho como se estivéssemos a entregar uma senha de papel com uma mensagem, a fazer olhinhos, para a miúda que está na carteira ao lado: “Vai onde te leva o coração!”, “Fazes-me Falta!” “Não há coincidências” e claro o inevitável “Amo-te”.

Houvesse um medicamento, que depois de tomado nos fizesse esquecer a pessoa que amamos e as farmácias ficariam inundadas de gente à sua procura. Existisse uma operação que nos removesse a parte da memória que nos faz lembrar esse alguém e ficariam enormes as listas de espera para essa cirurgia. Mas não existe. Não há. Não se vende, nem se opera.

Mas pode-se esquecer? Pode. Como assim? Ora, usando uma técnica vulgarmente usada pelos bombeiros para extinguir os incêndios. O lendário truque do “Fogo contra Fogo” que basicamente consiste em lançar outro fogo em direcção ao que vem a arder. Assim, queima-se uma área que ainda não esteja ardida, para que quando o fogo lá chegar nada mais tenha para arder. E é limpinho.

O que há a fazer é queimar o que ainda houver de bom e fazer com que as coisas que estejam associadas à pessoa que queiramos esquecer não nos pareçam assim tão agradáveis. E quando ela – leia-se o incêndio – aparecer, já só resta terra queimada.

E assim, aproveitando esta bonita analogia dos incêndios, é justo revelar que aqui o grande problema é o vento, o vento que pode reacender as chamas. E esse vento, pode ser uma chamada dela – que ninguém atenda o telefone – uma súbita vontade de lhe ligarmos nós, às 4 da manhã com uma voz notoriamente embriagada – apague-se já o número – ouçam, o vento pode ser uma foto dela ainda no quarto – que se guarde isso numa gaveta escura – uma carta que imbecilmente relemos – perigo, perigo! – Aceitar um convite para jantar a dois sob o pretexto de irmos falar sobre o ambiente no mundo – isso é muito arriscado – ir a casa dela rever a primeira temporada dos Sopranos em dvd – que fique claro, ao aceitarem este convite, isto já nem será vento, mas possivelmente, um tornado.

E assim, voltando à perniciosa técnica do fogo contra fogo, o mais importante, é queimarmos tudo à volta sem usarmos um único fósforo. É dizermos “isto é muito bonito e tal, mas eu tenho que sair daqui antes que se faça tarde” e assim, ao não permitirmos recaídas que sabemos que só irão adiar o inevitável, extinguiremos o pouco que vai existindo até que tudo fique reduzido a cinzas, tão frias e inertes, que nenhum vento será capaz de as reanimar.


Texto II - Esta coisa de gostar de alguém...

Fernando Alvim - 12/12/2007

Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.

Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?


Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é díficil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.

Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.

Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós.

3 comentários:

Sombr|A|rredia disse...

"A paixão
da cor.
Todas as cores
da paixão."


Jorge de Sousa Braga

isabel c. disse...

esta coisa de gostar de alguém. que está longe!!

beijos natalícios querida Mau :)

Maurette disse...

Cris, eu amo também esse poeta. Talvez porque goste de algumas frutas... :)
Beijo do Papai Noel

Isabel, como já dizia Carmem Miranda na década de 40, "Essa história de gostar de alguém/já é mania que as pessoas têm/Se me ajudasse o Nosso Senhor/eu não pensaria mais no amor!..."
E pior que, às vezes, nem longe está... :)
Beijo natalino