domingo, 12 de agosto de 2007

Santa Maria da Feira, Estarreja, Algés


Encanta-me o Portugal pequeno, simples, comum, do povo. Onde vivem as pessoas de verdade, onde amigos se encontram todas as manhãs na hora do café, por exemplo, como acontece em Algés, na Avenida da República, mais precisamente no bar do Sr. António, ao pé do prédio onde vive a Vera.

Integrei-me rápido, e até me acostumei, ao ritual: todos os dias tomávamos café nesse bar, que fica mesmo na loja do prédio, numa esquina que se despenca numa ladeira de inclinação improvável, mas que mesmo assim fica repleta de carros estacionados, numa afronta explícita à Lei da Gravidade. Todos os dias chega a Vera, cumprimenta o Sr. António e este responde:
- Bom dia, Verinha! A bica de sempre?

(Para os desavisados, bica em Portugal é o nosso cafezinho).

Vera responde que sim, Sr. António, e um copo d'água também. Já rodeiam o balcão algumas senhoras, todas muito carinhosas com ela, e uma vizinha mais próxima, que vive no próprio prédio, além da Matilde e da Mariana, duas meninas muito pequenas que logo serão levadas à creche. Ao verem a Vera, esticam logo os dedinhos - e aí começa outro ritual: a Vera retira dois de seus anéis enormes e coloridos, de acrílico, e deposita um no dedo de cada uma. As meninas sorriem e contemplam os anéis extasiadas, dobram os dedos, viram e mexem... depois devolvem. É assim desde quase sempre.

Em seguida chegam outros habituées, como o pai da Matilde, que segundo a Vera era ainda moleque quando ela se mudou para lá. Todos conversam sobre as coisas normais da vida, o dia de ontem, o que vão fazer hoje, os filhos e netos e etc. E são solidários; segundo a Vera, o Sr. António uma vez estava no bar e o cachorro de um senhor idoso que lá ia todos os dias apareceu à porta, emitindo sons que aparentemente pediam socorro. Logo pressentiu perigo e nem hesitou: fechou o bar tranqüilamente e acompanhou o bicho até a casa do dono, que de fato passara mal e precisou ir para o hospital.

A vida em Algés é assim, tranqüila e ao mesmo tempo movimentada; a cidade, que até poderia ser confundida com um bairro de Lisboa, de tão perto que é, está longe de ser um dormitório como tantas outras. Respira por si mesma, há gente por toda parte e tem de tudo.

Santa Maria da Feira, próximo ao Porto, foi uma surpresa. É pequena, acolhedora e tem um enormíssimo castelo. E castelos, para nós que não os temos aqui, são uma fascinação que remonta aos contos de fada. Afinal, nenhum adulto cresce completamente.

Lá fui parar no dia 5 de maio, para o primeiro compromisso da minha agenda jorgepalmiana. Na tardinha quase fria passeei com o Tiago e a Soraia à volta do castelo que também tem uma igreja, entrei na igreja justo na hora do início da missa e, como convém, esperei que o celebrante e seu cortejo chegassem ao altar antes de me retirar, sem esquecer de deixar ali as orações de quem chega, ritual que cumpro à risca em toda parte.

Da escada da igreja avistei a casa da foto, um pequeno edifício em ruínas que ganhou vida por conta de uma idéia brilhante: portas e janelas foram decoradas com fotos da festa da padroeira. Bela maneira de fazer presente a memória enquanto não se consegue restaurar a construção.

Tomamos cerveja num bar logo em frente, de inspiração meio anos sessenta, servido e freqüentado por rapazes bem bonitos. Andamos pela praça e seguimos a pé, investigando os arredores. Depois fomos até o teatro onde aconteceria o concerto, mas como era cedo resolvemos fazer um lanche antes. Ao retornarmos já escurecia e o tempo esfriava. A primeira gentileza da produção foi nos convidar para esperar no hall, ainda fechado ao público àquela hora.

Em Estarreja cheguei no dia 12, depois de Coimbra e após um tour carinhosamente planejado por Tiago e Soraia até Torreira, passando por São Jacinto. Na Torreira, quase anoitecendo, tive a sorte de presenciar a retirada das redes do mar por um grupo de pescadores a entoar seus cantos de trabalho. E de ver os barcos a colorir o cinzento da água que escurecia com a noite.

Não foi mais que uma breve passagem, Estarreja: uma volta pelo centro, um lanche e depois o excelente teatro, para um concerto de primeira. Quando planejei a viagem até pensei em pernoitar por lá mesmo, já que não sabia que teria a atenção e a companhia de palmaníacos tão especiais como o Tiago e a Soraia (e em Estarreja também da Cristina, amiga deles e minha vizinha de assento durante o concerto). Mas, graças à assessoria deles, as noites do norte foram mesmo vividas no Porto, para meu grande prazer.

Na madrugada do dia 13, quando cheguei ao Residencial Escondidinho, colado ao Coliseu do Porto (o já querido Grande Hotel de Paris não tinha vaga naquele dia), desabei nos braços do sono: desde o amanhecer em Coimbra, na véspera, já estava há quase 24 horas no ar.

Mas tudo valeu a pena... (preciso continuar?)

3 comentários:

bruno cunha disse...

uma delícia, as tuas crónicas!

Maurette disse...

Ah Bruno, teus comentários é que me fazem bem!
Bj
Maurette

Sombr|A|rredia disse...

Tens aqui a história da bica, caso ainda não a saibas :)

http://www.rtp.pt/index.php?article=208227&visual=16