domingo, 2 de março de 2008

Rosa portuguesa

Rosa de Serralves - Foto: Maurette Brandt

Para Vera

Pra ti eu guardei essa rosa, eternizada no jardim de Serralves. Ainda não sabia que seria tua, mas o dia de hoje me mostra o que não via ainda, quando a fotografei.

Um dia conheci uma menina travessa, fogueta, inteligente e irrequieta que sabia mudar, senão o mundo, pelo menos a cor dos dias. Isso, sim, ela fazia como ninguém. Um dia o chamado de além-mar foi mais forte que o canto de qualquer sereia, e lá foi ela reassumir uma história ancestralmente desviada. O que foi difícil no começo serviu apenas para temperá-la para o melhor que viria.

Hoje estás triste, debulhada entre um alívio que dói e um vazio antes impensável. E eu, que tudo acompanhei por obra do destino, guardei-te essa rosa. Se reparares bem, verás que se parece contigo; é bem portuguesa, tanto quanto és portusileira; nasceu num grande berço da cultura; é feita de tons de rosa-esperançoso; e sabe sorrir, olha bem como sabe.

Ninguém jamais percebe, na exata medida, o que vai na alma do outro, por mais íntimo que seja ou pense ser. No máximo, a gente pode conhecer o seu jeito de sentir e demonstrar (ou não). Quis a vida que o nosso reencontro fosse justamente num momento em que uma de nós precisava de apoio e a outra podia oferecer. Apoio numa língua de sinais antiga, com gosto de rebeldia, inacessível a quem quer que estivesse por perto. Precisei muito de ti para decifrar amorosamente o teu Portugal, e depois o meu, esse que fui construindo durante a viagem e continuo a decorar e reformar. E, felizmente para mim, pude ser uma espécie de ponte entre os teus mundos e o oceano, entre a memória e a realidade que te trazia mais luta.

Tudo que posso fazer hoje é abraçar-te de longe, e forte. É oferecer-te a rosa que criei. É estender o ombro por sobre o mar e alcançar-te. Uma vez um amigo me disse que ninguém pode viver a vida do outro, o que se pode é tentar amenizar quando a barra pesa muito.

A tua rosa é um sinal de tempo bom, é uma imagem de beleza que guardei do caminho. Não precisa de água, sol ou carinho, não precisa de nada porque já terá perdido essa forma e o viço da cor. No entanto, lá está, em todo o seu fascínio e esplendor.

Acredito que todas as coisas efêmeras possuem uma eternidade própria e grandiosa, que lhes guarda as propriedades essenciais. Assim como a rosa, tudo o que passa, de algum modo, fica. E continua a construir no rastro de luz que deixa.

Efêmera é a rosa, mas não a sua beleza; efêmeros são uma voz, um corpo, mas não aquilo que os torna especiais aos nossos olhos e ouvidos, o que deles se evola e fica eternamente no coração. Quando eu voltar a Serralves, haverá decerto outras rosas. Ainda sim, a essência da tua rosa brilhará, resplandecente, pelo canteiro todo.

Eu espero que a rosa se abra em doce perfume à tua volta e encha o teu coração de esperança viva. Da certeza de dias mais bonitos, firmes e frescos. E de momentos em que a eternidade das coisas e pessoas que amamos venha brincar conosco de roda, a rir um riso de criança, com cheiro de pão quentinho e de uma saudade boa.

2 comentários:

isabel disse...

uma rosa. um abraço. muitas saudades!

beijo querida Mau.

Sombr|A|rredia disse...

"As flores desfolham-se por dentro
sobre um retrato
um terço."
[...]

Manuel Alegre



Para a Vera, que conheci de "fugida", 1 beijo*