terça-feira, 28 de agosto de 2007

Sabores da língua

Diospiros

Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder

Jorge de Sousa Braga

Quem vê essa inocente fruta vermelha, de suave consistência e sabor ora doce, ora travado, que se aprende a comer maciamente - com as mãos, lambendo a frágil casca para não perder um só pingo de doçura, ou com cerimônias, de colher, tentando ao máximo não impregnar os dedos do seu caldo que, como todo doce, gruda - não imagina que possa suscitar polêmicas. Nem que possa ter dois nomes absolutamente distintos num mesmo idioma.

Aprendi com o genial Mário Prata, escritor brasileiro que viveu e trabalhou dois anos em Portugal, que na terrinha a prezada fruta atende pelo inimaginável nome de dióspiro. Ou diospiro, sem pronunciar o acento. Mário, que escreveu o impagável
Schifaizfavoire, suposto 'dicionário de português-português' e manual de sobrevivência para brasileiros em terras lusitanas, disse que jamais conseguiu pedir um diospiro em Portugal. Considerava esse nome um desrespeito à própria fruta.

Bem, pra mim e pra qualquer brasileiro, esse lindo e vermelho exemplar de delicia é nada menos que o proverbial caqui. '"Mas como caqui?", diria o Manel, espantado. "Caqui, claro!", responderia o carioca com ar de tédio.

Vossa Senhoria há de convir: os nomes não poderiam ser mais díspares, mais distantes, mais opostos. É quase como chamar salada de frutas de macarronada.

Até saber da existência dos diospiros (até mesmo na poesia, como se pode constatar acima), eu nunca questionei a verdade de um caqui. Vá lá, podia até ser uma fruta dita exótica, dessas que só há por aqui, como o açaí ou o cupuaçu (ambas deliciosas também). Mas não. Caqui é caqui e pronto, simples assim, pensaria eu, se sequer chegasse a pensar no assunto.

Foi então que surgiu o diospiro para bagunçar o coreto.

"Vê-se logo que é um diospiro", diria um português que nunca tivesse suspeitado da existência dos caquis. "Tem cor de diospiro, gosto de diospiro, jeito de diospiro... Não há dúvidas!". Para mim, isso soaria como a maior bobagem jamais dita. "Pois se tem cor de caqui, jeito de caqui, gosto de caqui..."

Em termos de língua, não gosto de deixar nada sem uma boa explicação. E pus-me portanto a investigar, para atinar com a razão dessa disparidade toda. Pesquisa daqui, pesquisa dali, acabei por descobrir que lusos e brasileiros têm razão à sua maneira: os dois nomes populares da fruta têm origem no seu nome científico, Diospyros kaki. A gente escolheu o caqui, enquanto os patrícios ficaram com o diospiro...

Alguns portugueses mais puristas poderiam dizer que caqui é aquela vaga cor da qual se faziam os uniformes dos patrulheiros da Legião Estrangeira. E o brasileiro, rápido, objetaria: "Não, não, a cor é cáqui, não caqui!". Ah, como esse acento agudo faz diferença para nós! O cáqui, tom derivado do marrom, é uma cor; já o caqui, que não tem acento mas é pronunciado com ênfase na última sílaba, é uma fruta quase sempre vermelha, suculenta e deliciosa (que, por sinal, no último verão fez a nossa alegria; há anos não me lembrava de um verão que produzisse caquis tão admiráveis!). Bem, eu disse "quase sempre vermelha" porque existe - ainda segundo minhas pesquisas! - o caqui chocolate, também conhecido como caqui duro, de consistência mais firme e textura terrosa, que ainda não tive oportunidade de provar.

Bem, depois de tantos detalhes advindos dessa minha incursão no universo dos Diospyros kaki, dei por encerrada a polêmica. Não sem uma certa reserva, porém. Afinal, diospiro não me parece sequer uma palavra elegante... Caqui, pelo menos, é um vocábulo pequeno, aconchegante, que lembra o quintal da vó da gente, a infância... Ou será que é a fruta que lembra isso tudo?

Ah, sei lá... pra falar a verdade, acho que o melhor a fazer, diante de um caqui (ou diospiro), é seguir os cânones do poeta e comê-lo, sim, com o vagar necessário ou a pressa contundente... e aproveitar o sabor, seja lá que nome tenha.



7 comentários:

bruno cunha disse...

estamos sempre a aprender!

por isso brindemos com 1 diospiro ou 1 caqui... não faz mal, ambos são o mesmo!

(o engraçado é que o nome científico deixa antever que a é de origem grega, parece-me... mas isso já requer outra investigação).

;)

Maurette disse...

Ih Bruno, essa nova investigação que propões pode ser fascinante... e interminável lol... Onde será que nasceram os primeiros caquiospiros??? Numa linda ilha deserta perdida no Mediterrâneo????
Maurette

bruno cunha disse...

olha só o que eu descobri mais sobre os diospiros:
http://www.esab.ipbeja.pt/~centrohf/diospireiros.htm

isabel disse...

e ainda tu não te debruçaste sobre o "encarnado" (cor) :))

Vera disse...

Minha querida amiga falaste do meu fruto preferido: dióspiros!!! E está quase a chegar a época deles!
Texto maravilhoso!

Beijinhos

Maurette disse...

Pois, Vera, fico feliz! Também adoro caquis! Aqui são frutas do verão, e este ano estiveram esplêndidos mesmo. Aproveitei-os bem enquanto duraram, então tu aproveitas por mim os diospiros portugueses, tá bem?

Bj
Maurette

Orlando Gonçalves disse...

Pois miga podes come-los todos essa é uma fruta que não gosto nada. Mas concordo contigo caqui é um nome muito mais atraente para chamar a este fruto.