quarta-feira, 23 de maio de 2007

Rumo ao Norte



Há que esclarecer: planejei, sim, uma viagem tortuosa. Que me trouxe beleza e inesperadas luzes, mas que foi tortuosa, foi. Mas isso se deve, essencialmente, a algumas motivações.
Desde junho de 2006 que Portugal andava a rondar-me a alma.
Primeiro foi a visita dos amigos da Companhia de Dança de Aveiro, conhecidos desde 2003, que consegui levar à minha cidade de Barra Mansa.
Depois foi a Vera que me "achou" na Internet.
Depois foram as afinidades crescentes com o Paulo Manso, o fabuloso coreógrafo da companhia.
E depois... Jorge Palma.
Ao ouvi-lo pela primeira vez, fez-se estranho silêncio dentro de mim. Algo parecido com o que me lembra esse trecho de Rosa dos Ventos, do nosso Chico Buarque:

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer...

Não tinha jeito, e eu sabia. Estava perdida pra sempre. E tornou-se urgente ouvi-lo, fazer a mais tosca tentativa de entender o que se passava. Alguém tão longe a compor e cantar aquelas maravilhas, que não só me cabiam perfeitamente no espírito como também caberiam em qualquer tempo e lugar?

A partir daí, despi qualquer réstia de preconceito e passei a examinar Portugal através da música, a surpreender-me a cada instante com a profusão de talentos e modernidade acontecendo em toda a parte.

Mas Jorge Palma, este em particular, parece-me o mais contemporâneo de todos, um dos poucos talvez que avançou com segurança para um patamar mais universalista da música, num exercício sofisticado de melodia e poesia.

Descobri-lo fez-me pensar que ele bem poderia ter "existido" aqui, em sua carreira de mais de 30 anos - por que não acontecer no Brasil todos esses anos, ao lado dos grandes da nossa MPB?

E é bom que se fale: além da música tradicional, específica (e linda, sim, por que não?) - o fado, o vira e outras manifestações - o que se sabe no Brasil do panorama musical de Portugal? Tudo bem, uma piadinha de português ou outra faz parte da nossa cultura, mas por que não nos abrirmos a conhecer o que de melhor se faz por lá? Ao contrário do que muitos pensam, o ambiente musical é diversificado, colorido, aberto... e cheio de riquezas.

Mas estamos falando de Jorge Palma, essa coisa máxima, imensa, maior. Muito distante da maioria dos outros, muitos deles com um trabalho de qualidade, outros nem por isso.

E foi mesmo por ele que resolvi fazer as malas: já não me bastava ouvir, tinha de ver, apreciar as facetas desse artista "da estrada", como ele próprio se define.

E por isso comecei Portugal pelo Norte, visitando as cidades de Santa Maria da Feira, Coimbra e Estarreja quase de passagem, para estar em seus concertos. E, como a primeira e a última ficam coladas ao Porto, descobri de verdade essa jóia da coroa portuguesa. E, de quebra, um pouco vale do Douro, berço dos vinhos do Porto.

Mas isso já é história pra outro capítulo.

2 comentários:

Soraia Blás disse...

http://da-me-musica.blogspot.com/2007/05/voo-nocturno-de-jorge-palma.html


http://da-me-musica.blogspot.com/2007/05/o-bob-dylan-portugus.html

; )

Maurette Brandt disse...

Grande Soraia, escreves muito bem!!! Obrigada pela homenagem. Foi mesmo isso o que senti, uma emoção enorme que em imensa medida devo ao carinho seu e do Tiago. Foram dias inesquecíveis que, espero, prolonguem-se "forever", como diria o Jorge...
Beijos
Maurette