terça-feira, 3 de junho de 2008

Pedro e Inês, em visita ao Brasil

Cena do sonho de Pedro
Foto: Divulgação

Entre as minhas dores-de-cotovelo durante a visita a Portugal, no ano passado, estava o fato de ter perdido o ballet Pedro e Inês, no dia 13 de maio, em função de um engarrafamento em Fátima, história que já contei aqui. Apaixonada por dança que sou, fiquei triste com o fato, mas paciência, não se pode ter tudo. Na época, conformei-me.

Só que os deuses da dança conspiraram a meu favor e trouxeram o espetáculo para o Rio de Janeiro. E também para Brasília e São Paulo, onde a Companhia Nacional de Bailado e seu elenco de 22 bailarinos se apresenta nos próximos dias.

Consegui ingresso no dia da única apresentação carioca, uma galeria muito bem localizada num Theatro Municipal supostamente quase lotado, o que no entanto não se verificou na prática. Não sei se foi culpa da súbita e torrencial chuva que caiu na sexta-feira, 30 de maio, ou se o problema teve a ver com excesso de distribuição de convites; o fato é que o comparecimento ficou bem abaixo do que era de se esperar, diante da enorme expectativa criada por matérias da Rede Globo e ampla divulgação na mídia em geral.

Entre as lindas fotos do programa, um poema inédito de meu adorado Nuno Júdice, poeta português que conquistou meu coração justamente com "Pedro, lembrando Inês", este anterior à obra coreográfica. Enquanto viajava em versos como

"[...] e é em ti que revivo o que os amantes deixaram
para outros, e outros nos deixaram, neste caminho
de rosas e espinhos que desbravamos,
em busca da comum madrugada. E como sei de ti
o que os lábios me ensinaram! [...]"

ficava mais ansiosa ainda em relação ao que iria ver. A anunciada opção retrospectiva, ou seja, toda a cena passada após a tragédia consumada, a irrepreensível escolha musical, tudo parecia conduzir a momentos inesquecíveis.

Pedro e Inês é um bom espetáculo, sim, sobretudo em termos de densidade dramática. A dimensão da tragédia dos amantes é uma carga presente, traduzida num clima irrespirável quase o tempo inteiro. Nesse sentido houve muita felicidade na concepção da coreógrafa Olga Roriz, de um modo geral. Criativa é também a idéia de várias "Inês" se revezarem no leito, em sono agitado, e se desdobrarem em múltiplas angústias pelo palco. A coreografia dessa dor, no entanto, é fraca e difusa, ainda que bem executada por bailarinas excelentes, entre as quais a protagonista e primeira dama do ballet português, Ana Lacerda. A pontuação musical opressiva é eficiente para criar clima e temporalidade com um Pedro ausente e igualmente angustiado. Completamente desnecessários, os gritinhos emitidos por cada Inês que se levanta, assim como as gargalhadas de um Pedro desorientado, desfazem o clima e, conseqüentemente, quebram o ritmo, obrigando o espectador a um esforço para recompô-lo.

Há que assinalar que a iluminação intencionalmente escura, possivelmente pensada para acentuar o tom dramático, revelou-se insuficiente, escondendo demais os bailarinos e, em muitos momentos, anulando mesmo a adequada visão da coreografia. Isso se estende pela cena do assassinato, que dá a impressão de arrastar-se e perde força dramática.

O primeiro pas-de-deux na água, que retrata o sonho-lembrança de Pedro, é lindíssimo. Sensual e lírico a um tempo, tem uma força voluptuosa que desenha e redesenha os corpos dos bailarinos e passa muito bem a intensidade da ligação entre os amantes. É um dos momentos magistrais da obra, talvez o único que possa ser efetivamente chamado de dança.

A marcha dos algozes têm iluminação mais eficiente e é bem executada, mas dá a nítida impressão de apenas ganhar tempo para os bailarinos se prepararem para a fase "macabra" do espetáculo, quando um desesperado Pedro desenterra sua amada e impõe o cadáver a uma corte que, mesmo aterrorizada, é na verdade responsável por tudo aquilo.

Teatralmente, são cenas fortes. E muito bem realizadas, sempre com perfeito contraponto da música. Mais ator que bailarino, o personagem Pedro vivido por Christian Schwarm nos comove em sua ternura e desespero, e o que à primeira vista poderia horrorizar acaba por enternecer a todos. A sós com sua amada, cujo corpo ainda guarda os seus sonhos, Pedro escreve livros e livros no palco com suas lembranças eloqüentes, o seu amor e calor presentes, a inconformação pela perda e o desejo de reter, a todo custo, tudo o que naquela mulher lhe era caro. Ana Lacerda deve de fato merecer a reputação que tem em Portugal, pois consegue elevar a "não-dança" ao estado absoluto da arte, tal a imobilidade e desvitalização que consegue imprimir ao corpo inerte de Inês. Impressionante em todos os sentidos, sobretudo nas cenas da fonte, de uma dramaticidade profunda, sincera e que prendem de tal modo o espectador ao fio da história que é como se, de repente, fôssemos nós um pouco os amantes.

A procissão e o beija-mão transcorrem sem maiores pecados. São cenas corretas dentro do que seria esperado, ainda que sem grande expressão coreográfica. Como espetáculo, Pedro e Inês é, em essência, paixão e teatro, com muito pouca dança. O que não desmerece, em absoluto, a verdade com que foi elaborado, construído e interpretado por bailarinos muito bem preparados. Um pouco mais de luz, ainda que filtrada pelo drama, faria bem ao conjunto. O ritmo também merece atenção. Ao final, exausta e mobilizada, fiquei com a sensação de que tinham transcorrido horas - e no entanto o espetáculo durara apenas uma hora e dez minutos.

Talvez eu esperasse mais, dadas as demarches que cercaram, desde há um ano, a minha "saga" pessoal em relação a esse espetáculo. Mas gostei - e aplaudo o nível de paixão com que uma história tão presente no imaginário de todos nós foi colocada em cena.


4 comentários:

Eu disse...

[...]
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice
in
Princípios

mónica disse...

vi o bailado em coimbra, pq vi um programa com a olga roriz a explicar a encenação e fiz uns quantos quilometros para o poder ver, com uma amiga de arrasto que não apreciava ballet, por mim valeu toda a viagem e a minha amiga ainda ficou fã do ballet!

já pensei em ver outra vez :P

mas prefiro ver outras peças da ana lacerda :D ela sim, é "a nossa selecção" mesmo que por ela ninguém use cachecol nem pendure bandeiras na janela :DDDD

o que tenho visto da olga roriz deixa-me enjoada, no ultimo bailado (?) dela saí no intervalo!

monica disse...

centenas de quilometros :D numa noite

A. disse...

http://a-skim.blogspot.com/2008/05/photobucket_31.html





Profundamente agradecida...

Ana Lacerda