domingo, 21 de outubro de 2007

Uma cidade às vezes muito portuguesa

Adega Flor de Coimbra - Lapa, Rio de Janeiro
Foto: Fernando

Só mesmo um maestro tão ocupado - e carinhoso - quanto o meu amigo Marcelo Jardim poderia marcar uma reunião às oito da noite, depois de um longo ensaio e antes de enfrentar 140 km de volta pra casa, dirigindo!

Fui de metrô até a Cinelândia e caminhei pelo Passeio Público até a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aliás, esses sítios parecem parte de um revival orquestrado por algum deus saudosista: em poucos dias subi duas vezes ao Edifício Municipal, bem pertinho dali, onde fica a sede do tradicional bloco carnavalesco Cordão da Bola Preta, um dos ícones da história do Rio, e onde trabalhei por vários anos, até meados da década de 90. Um rápido mergulho na própria história, distante há pelo menos uns 15 anos.

Mas voltando ao maestro e à reunião, cheguei à Escola perto da hora de acabar o ensaio e praticamente não esperei. - Vamos comer alguma coisa e a gente conversa? Sugeriu o Marcelo, e fez-me descobrir uma parte da alma portuguesa do Rio.

(Que ninguém duvide dela.)

A Adega Flor de Coimbra é um enclave lusitano charmosíssimo, quase parede e meia com a Sala Cecília Meirelles, o mais importante palco para a música erudita do Rio. O bairro é a bucólica Lapa, que ainda guarda muito do seu encanto. Ao fundo uma pracinha, crianças jogando bola, nem parece a mesma cidade que ganha os jornais quase sempre por razões tristes.

Levei um susto com a profusão de bandeiras verde-encarnado e verde-amarelo desfraldadas, xales, garrafas de vinho, fiambres... Vitrines com canecas, mais garrafas e uma profusão de objetos que recordam a terrinha. Na parede, posters de Portugal, lógico. E o cardápio... bem, acho que nem preciso me estender sobre isso.

Marcelo e eu trabalhamos juntos num lindo projeto de lusofonias que pretende resgatar os 30 anos desperdiçados e apresentar Jorge Palma ao Brasil com tudo o que ele (e o público) têm direito, no próximo ano. Enquanto conversávamos, convidamos alguns bolinhos de bacalhau que logo desapareceram nas águas de um chope honesto (brasileiro adora chope, mas essa alma é outra). Mais tarde chegou o Rafael, outro músico que seguiria com ele, e resolvemos pedir uma sopa típica da casa, perfeita para o tempo incerto e uma garoa enjoada que se insinuava.

A Flor de Coimbra é um encanto; quietinha e sossegada, comida boa, a dose certa de silêncio... Um bom exemplo da influência portuguesa na culinária carioca. Os muitos restaurantes de origem lusitana, para todos os bolsos, deixaram marcas nos nossos hábitos alimentares. Talvez o mais famoso seja o Adegão Português, que fica em São Cristóvão e é de fato um delírio. Mas há outros tão tradicionais quanto ele, como a Marisqueira e o Alfaia, em Copacabana, e a Adega do Valentim, em Botafogo.

Fui pra casa pensando que, de fato, as coisas portuguesas me perseguem carinhosamente. E eu não faço a menor menção de fugir...

2 comentários:

ÁguaDiCoco disse...

que maravilha descobrir que a cidade maravilhosa tem uns recantos lusos que possivelmente só os mais atentos descobrem, mas ainda assim estão aí! =)
E a Lapa, amei! Para mim o lugar mais místico e mais fantástico dessa cidade...Maravilhosa mesmo!

Sombr|A|rredia disse...

ehehehehheehehehh

(eu nem comento)