segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Esferovite, ou " não dá pra ligar o nome à pessoa"


A língua portuguesa é uma só. É a sexta mais falada em todo o mundo, tão poderosa que até reúne os oito países falantes numa comunidade internacional. E nós, os nativos, ficamos muito felizes com isso. Podemos até acreditar que é só chegar em Timor Leste, por exemplo, e estaremos automaticamente em casa.
É nesse momento - no êxtase hipnótico da autoconfiança - que começamos a correr perigo.
Por mais que a língua seja a mesma, temos de nos lembrar de um detalhe que faz toda a diferença: as culturas lusófonas são bem diversas. Nada mais natural, pois o
que determina a essência de uma cultura são os elementos que a construíram. Essa irmandade baseada na língua-mãe é uma coisa real, sim, mas também precisa de um cultivo, de um entendimento, de um desprendimento básico: sair um pouco daquela cultura que está instalada dentro de nós e abrir espaço para que a cultura do outro nos alcance, nos sensibilize e nos aproxime dele.
Não gosto nada, por exemplo, quando alguém escreve ou diz: "Isso aqui está escrito em brasileiro." Brasileiro, pra mim, é um cidadão do Brasil, do gênero masculino. O nosso idioma é português, pronto, tanto aqui quanto em Luanda, Maputo, Dili ou na cidade do Porto. O que muda é a cor local, que enriquece o idioma sim, sem no entanto transformá-lo em outro.
As minhas experiências com a cultura portuguesa através das armadilhas da língua têm sido memoráveis. Hoje acabei me lembrando de uma bem interessante, e aparentemente banal, mas que dá bem a dimensão da importância do viés cultural para explicar a diversidade.
Quando estava em Lisboa resolvi visitar uma exposição de arte moderna nos salões da Assembléia da cidade, uma linda edificação conhecida como Palácio da Saúde, por ter sido um sanatório no passado. As peças eram da coleção Berardo, um acervo importante. E algumas, por sinal, bem expressivas. Como em quase todos os museus que visitei em Portugal, uma jovem guia muito qualificada, estudante de artes plásticas, esclarecia tudo e situava o pequeno grupo de visitantes naquele contexto. Cada detalhe envolvido na montagem da exposição - a localização das peças, a divisão dos espaços e o próprio caminhar entre eles - era vital para causar no visitante uma determinada impressão, vislumbrada pelos curadores.
Nos jardins deparei-me com uma peça de Henry Moore, com cuja obra tomei contato há uns dois anos e meio e que se tornou uma das minhas paixões. Mas havia outros trabalhos interessantíssimos, que representavam conceitos ligados ao movimento, aos sentimentos, ao próprio homem e sua presença no planeta. A guia explicava cada detalhe com muita propriedade. Chegamos então a uma espécie de árvore esquemática, "plantada" no espaço aberto. E ela comentou: - O material que o artista usou é o esferovite, em função da leveza que ele queria representar.
Assim que acabou de dizer isso, a menina - que já tinha trocado algumas palavras comigo, e portanto sabia que eu era brasileira - apressou-se em explicar, solícita: - Esferovite é o que vocês chamam de Isopor! Eu sei porque tenho amigas brasileiras! - sorriu.
Fui tomada, então, por essa palavra. Es-fe-ro-vi-te. Nem o melhor esforço de imaginação poderia aproximá-la, no meu universo, da matéria à qual dá nome. Esferovite me lembra esferográfica, uma simples caneta Bic (a Bic foi a primeira marca de canetas esferográficas a aparecer no Brasil e existe até hoje). Não há analogia possível com o isopor, com aquelas bolinhas inconvenientes com cheiro (e gosto) de nada que fazem a maior sujeira quando não estão recheando almofadas, ou com aquelas placas grossas que, no tempo do colégio, a gente comprava para fazer cartazes para a Feira de Ciências. Ou que recortávamos, com fio quente, e transformávamos em personagens gigantes: Mickey, Pato Donald, a brasileiríssima Mônica e sua turma... ou em letras para escrever FELIZ ANIVERSÁRIO.
Quando o Brasil venceu a Copa do Mundo de 70, o meu pai - que era um hábil e talentoso desenhista - pintou três enormes taças Jules Rimet em folhas de isopor, recortou-as a quente e colou hastes de madeira atrás. A festa nas ruas era grande - e lá fomos nós, como a grande maioria dos brasileiros, comemorar. A avenida principal da minha pequena cidade transformou-se num imenso carnaval, alegria para todos os lados. Meu pai ia à frente do pelotão da família; levava um painel enorme que pintara em lona de vinil, com uma gigantesca formiga - alusão às "formiguinhas do Zagalo", alcunha pela qual eram conhecidos os jogadores da nossa seleção - carregando ao ombro um raminho com várias folhas. Cada uma levava o nome de um país derrotado pelo invicto Brasil, em sua mais histórica campanha em Copas do Mundo.
Atrás vínhamos nós, eu e minhas duas irmãs, cada qual com sua imensa Jules Rimet. O povo olhava aquilo e se admirava, afinal eram desenhos perfeitos. A gente quase não dava conta de carregá-las, embora o isopor/esferovite seja bem leve; eram mesmo muito grandes! No calor da festa, acabaram sendo tomadas pela multidão inebriada, mas ninguém ligou. Tudo em nome da vitória: a terceira Copa conquistada, a taça em casa definitivamente, a alma lavada.
(Ainda éramos todas pequenas demais para imaginar o que acontecia, naquele exato momento, nos porões da ditadura militar. E jovens demais para compreender a extensão da manipulação que usava o futebol, paixão nacional, para encobrir tantos crimes que só muito mais tarde viriam a público.)
Anos e anos depois, no terceiro aniversário da minha filha, pintei 80 rostos de palhaço em bolas médias de isopor, colei-lhes cabelos de lã vermelha, fiz o corpo com papel crepom (como será que se diz isso em Portugal?) e a estrutura com canudinhos de refrigerante (ou seja, palhinhas, meus caros portugueses), para a felicidade dos convidados mirins. Isopor faz parte da vida, afinal! Usa-se no dia a dia. É uma presença que pode até ser esférica, como as cabeças dos palhacinhos da festa da menina, mas não esferovítica, pelo menos para nós brasileiros.
Ao relembrar tudo isso, percebo que aquela exposição deixou-me algumas boas lembranças para além da arte. Por exemplo: saber que isopor também pode ser esferovite - e sem perder a substância.



4 comentários:

ÁguaDiCoco disse...

O "esferovite" por uma brasileira e o "isopor" por uma portuguesa...e viva a diversidade! ;)
ps: vamos a Barcelos, vamos! =))

Sombr|A|rredia disse...

...e eu que não conhecia esses teus dotes artísticos lol

Ahh ..papel crepom,deve ser o que aqui se chama de papel crepe!
Ok..já sei que vais dizer que "crepe" é pra comer LOL

Maurette disse...

Sim, querida, crepe pode ser para comer, mas também há aqui um tecido chamado crepe, em duas versões: o crepe de seda, para roupas mais chiques, e o crepe indiano, tecido enrugadinho à base de algodão, para fazer batas hippies, saias, roupas mais alternativas. "Papel crepe" faz sentido para mim: o nosso "crepom" é um papel enrugado, colorido, usado para trabalhos manuais, enfeites etc., e que mancha irremediavelmente se for molhado... ou melhor: não só mancha como desmancha! Beijos

Anônimo disse...

Olá gostaria de saber onde é que em Lisboa ou arredores posso comprar placas de esferovite para fazer decorações para festas infantis.
Agradecia uma resposta por favor para o email: anamsrodriguesster@gmail.com
Muito obrigada.