sábado, 22 de setembro de 2007

Reverência

Foto: Manuel Lino


É inevitável, sim, voltar ao Jorge Palma neste blog.

Não apenas pela felicidade da sua música.

Nem porque todo mundo está careca de saber o quanto eu gosto dele.

Nem mesmo pelo imenso ser humano que é, para além da arte.

É porque Jorge Palma tem momentos tão inigualáveis, tão fundos, que é impossível não registrar. Se você pensa que já viu tudo, certamente engana-se (e disso os palmaníacos entendem bem). Mesmo com todas as surpresas pequenas e grandes, há situações que superam toda e qualquer possibilidade, vão além da mais fértil imaginação e deixam a gente numa felicidade só, com um orgulho danado, e na maior alegria por poder, de alguma forma, ser parte daquilo.

Foi o que se deu comigo no dia 20 de setembro - quinta-feira passada, há menos de 72 horas, e portanto quase quente ainda.

Pela eficiente rede
palmaníaca, um passarinho me contou que o Jorge Palma faria um concerto no Metrô de Lisboa (ai, eles dizem 'Metro'), mais precisamente na Estação do Cais do Sodré, uma das maiores (senão a maior) da cidade, bem no olho da hora do rush, no dia 20. A boa lembrança veio do próprio Metrô de Lisboa, nas comemorações da Semana Européia da Mobilidade (ah, que coisa mais civilizada, celebrar os transportes públicos!).

Logo que soube, sorri muito por dentro. O Jorge - talvez a pessoa pública mais despida de qualquer vaidade que já conheci na vida - sempre teve coragem de viver. Para ele, nunca foi problema enfrentar tudo com um sorriso e uma guitarra na mão. A sua história pessoal registra que, nas peregrinações pela romântica Europa dos anos 70, cantou muito na rua para sobreviver mesmo. E o metrô foi um de seus palcos mais constantes.

Acho linda essa sua capacidade de existir apenas pelo que é, com suas verdades e uma enorme, verdadeira humildade. E posso imaginá-lo, sim, a oferecer sua imensa arte aos quatro ventos, ao ouvido e ao coração de quem soubesse recebê-la. Com a grandeza de sempre.

Em entrevistas recentes, contou que em Paris tinha crédito no pequeno hotel em que morava. Acordava, tomava um café da manhã reforçado, ia cantar em busca do destino (e do pão).
"O importante é que nos sentíamos vivos", resumiu (posso até adivinhar o sorriso). Disse também que, em Portugal, foi levado diversas vezes pra cadeia (ou esquadra, como dizem lá. Qualquer brasileiro pensaria logo num navio militar; afinal, esquadra, aqui... deixa pra lá) mas nunca foi mesmo preso. "Quando tinha uma pequena multidão em torno de mim, iam embora ou eram vaiados." Tempos brumosos. (A minha alma, muitíssimo solidária, faz coro e dá o maior apoio às importantíssimas vaias entoadas pelos primeiros fãs de carteirinha a defenderem o Jorge.)

Precisa ser grande para encarar os altos e baixos da vida errante. Lembro-me que um dia, há muitos anos, no Rio de Janeiro, resolvi que ia vender sanduíche natural na praia. Pra quem não sabe, sanduíche natural foi uma moda riponga que pegou muito aqui nos anos 80; pão de forma com recheio de ricota com cenoura, ervas, às vezes frango desfiado... tudo muito política e ecologicamente correto. E a praia de Ipanema era mesmo um grande mercado.

Bem, levei os sanduíches, mas na hora de apregoá-los, como faziam os vendedores, tive uma imensa dificuldade. A voz quase que não saía! Comecei a andar, a andar, a andar - e o grito vinha tímido, cortado, quase como um pecado difícil de confessar. Aos poucos, porém, fui ganhando confiança. E no fim já me divertia. O melhor momento do dia foi a (única) venda que fiz. Enfim, o sucesso! Mas nunca mais repeti a façanha.

É por essas e por outras que amo a generosidade que o Jorge Palma tem para com a vida e o que ela lhe deu. Vê-se nos olhos que é uma relação limpa, nada a lamentar ou reivindicar. É mesmo seguir em frente, enquanto houver estrada para andar.

E no Metrô do Cais do Sodré, foi uma emoção vê-lo homenageado e reverenciado por uma multidão apaixonada, num palco imenso e com tudo o que um grande artista tem direito, exatamente no lugar onde começou. Mesmo de longe, e pelo vídeo da matéria jornalística postada no site do canal televisivo SIC, pude sentir o calor e estar quase dentro, quase perto, para orgulhar-me muito do amigo e vibrar ao vê-lo receber esse reconhecimento mais que especial, mil vezes merecido.

6 comentários:

isabel disse...

é. só por existir.

e eu com as minhas dislexias. troquei tudo. o metro, o cadaval.

não me perdoo.

beijos Mau, Jorge!

bruno cunha disse...

o jorge irá agradecer-te sempre o teu empenho e gosto que tens por ele...
;)

Sombr|A|rredia disse...

"Canta uma canção de amor,
Pinta os olhos cor de mar...
Põe no teu peito uma flor,
Traz um amigo qualquer
E vamos juntos abraçar o sol nascente."


Palma, Jorge


*Nao sei a qual canção pertence este verso, mas de certo que a dona deste blog o sabe ;)

Anônimo disse...

Oi Maurette
Seus blogs estão ótimos.
Nem preciso dizer...
Você é perfeita em tudo que faz...
Sua inteligência e invejável...
Parabéns!
Muito bom a gente encontrar coisas boas assim para ler na internet...
Vou tirar um tempo para ler tudo.
Agora estou fazendo outras coisas só dei um olhada.
Parabéns... parabéns... parabéns..
Bom te encontrar por aqui.
Beijos!
Fatinha

ÁguaDiCoco disse...

Querida M.! Adoro seus textos. E a foto do JP está óptima. Reflete bem a postura dele na vida..
Beijinhos

Orlando Gonçalves disse...

Amiga
Pois eu que vi o espectaculo na Olga Cadaval, gostei mas não achei que o Jorge estivesse muito á vontade preferia te-lo visto no metro o espaço onde eu acho que ele se sente bem e onde as pessoas se sentem também bém. No Olga Cadaval foi muito snob o Jorge não, mas o publico. Tudo sentadinho muito arrumadinho, sem desprender da cadeira, até parecial que tinham o cú pregado ao assento. Pois eu não achei que aquele ali estivesse o verdadeiro publico de Jorge Palma. Tanto é que ele só fez um ancore e depois se foi, sem que o publico pedisse novamente a sua presença em palco. Não foi um concerto intimista como tantos outros que já vi dele.
No Metro é melhor, ali está com a sua gente...,em Sintra foi mais snobismo, eu achei, tirando é claro excepções, como é evidente...