sexta-feira, 13 de julho de 2007

Belém, Jerónimos, CCB



Uma constante nessa minha viagem foi o retorno aos lugares. Era engraçado como eu sempre voltava, não a todos, mas a alguns sítios em especial.

O Mosteiro dos Jerónimos e o Centro Cultural de Belém são bons exemplos. No dia em que cheguei, a Vera deixou-me naquela área, para visitar o Mosteiro e adjacências. Ventava, o tempo nublou-se depois da bela manhã de sol que me recebeu; fazia um friozinho gostoso. Na larga avenida desabrida fiquei parada, perplexa com o tamanho do edifício que um dia dividiu-se para abrigar também o Museu de Arqueologia. Caminhei despreocupada e longamente pela calçada inteira, sorvendo aquilo tudo. Não sei por que, a parte do claustro estava fechada naquele dia; então só vi mesmo o Mosteiro em si, em sua austeridade silenciosa, majestade na penumbra.

Gosto das igrejas. Sento-me sempre por largo tempo e reflito, faço minhas orações (sim, o meu lado místico é pronunciado!), fico a misturar-me à serenidade secular que emana das paredes, dos ornamentos, do rosto dos santos... Nem sempre a sensação é de paz, pois há lugares em que não conseguimos nos furtar a pensar em Inquisição, torturas, malfeitos... Mas dessa vez não foi assim. Fiquei ali tentando acreditar que estava de fato em Portugal. E funcionou.

Retornei sobre os próprios passos até o Centro Cultural de Belém. Que arquitetura! Adorei explorar os múltiplos espaços vazados, as poderosas correntes de ar, uma perturbadora escultura modernosa feita de milhares de garrafas de vinho verde (na verdade são dois castiçais gigantes, de autoria de Joana Vasconcelos, colocados nas entradas norte e sul, batizados de "Néctar"), a amurada para o lado do Tejo, os jardins suspensos entre esplanadas, cheios de namorados em torno de si mesmos... Dei uma passadinha no cyber-café de uma das livrarias, a menor delas, e resolvi almoçar no segundo piso. Caí na besteira de pedir uma água com sabor de cola... e digo que foi a única nota dissonante, digamos assim, entre os paladares da viagem.

Da amurada do jardim fiquei a mirar o Padrão dos Descobrimentos, mas não conseguia atinar o jeito de se chegar lá. Retornei a pé até a famosa Pastelaria de mil oitocentos e tal, para provar o não menos famoso pastel de Belém feito mesmo em Belém. Provei e gostei, mas, como já disse, prefiro as doceiras que emigraram para cá.

Voltei outras duas vezes, e na terceira aprendi o caminho até o Padrão dos Descobrimentos: cruza-se uma longa e larga passagem subterrânea, bem ao final do jardim defronte ao Mosteiro. Como brasileira escaldada, adivinhei mil perigos na travessia; desci as escadas na maior cautela e, ao chegar embaixo, avistei duas pessoas na outra saída. A adrenalina falou mais alto e voltei correndo. Resolvi esperar por companhia. Ao descer de novo, em seguida a um pequeno grupo, descobri que o terror era injustificado; nada havia além de duas senhoras ambulantes a vender bijuterias. Que tristes são os traumas que nos infligem as cidades violentas!

Já era tarde, muito além dos horários normais dos museus, portanto fiquei mesmo ao redor. E adorei. Pude observar as duas faces do Infante D. Henrique e todos os outros ali retratados, a posição estratégica do marco, achei uma lindeza o Tejo entardecendo, as pessoas sentadas em volta a observar a água, a perder-se no que de imenso há nela, a adivinhar o outro lado... e não pude deixar de rir comigo mesma ao lembrar de uma piada boba que simboliza a rivalidade entre a cidade do Rio de Janeiro e Niterói, a antiga capital do estado, que fica do outro lado da Baía de Guanabara. "A melhor coisa de Niterói é a vista do Rio", dizem os cariocas... Será que quem está do outro lado do Tejo também pensa o mesmo quando vê Lisboa?

Caminhei dali até a Torre de Belém e sua ponte levadiça. Adoro histórias de pontes levadiças e crocodilos perigosíssimos a defender os castelos, mas não pude sonhar muito porque a água já não está; então atravessei, aferrei-me às correntes da entrada e fiquei a tirar fotos absurdas de mim mesma, com a objetiva da câmera virada, tentando pegar parte da torre, como se tivesse sido feita prisioneira nalgum recôndito cubículo, espécie de Rapunzel sem tranças... viagens muito próprias de quem não consegue resistir ao fascínio dos séculos de pedra ali representados.

Da Torre estiquei um pouco até o monumento aos soldados mortos no ultramar, que é de uma beleza singela e geométrica, estóica contra o sol da tarde, e refletida num melancólico espelho d'água, com a pira a arder no centro. Percorri as paredes repletas de nomes. E pensei na insanidade que bem poderia dispensar monumentos, ainda que belos. Não seria muito melhor vê-los todos escritos no livro da vida, a comemorar conquistas, na lista dos integrantes de uma orquestra, um coro, o corpo médico de um grande hospiral, nos créditos de um filme ou série de tv? No convite da formatura? Ou como parte de uma coletiva de pintura? Em lombadas grossas, nas prateleiras de uma livraria? Muito mais que uma parede solitária, o que garante mesmo que essas vidas desperdiçadas não serão esquecidas é a lembrança triste que suas famílias passarão de geração em geração, réquiem feito do amor interrompido.

Atravessei uma passarela muito alta sobre a via férrea e retornei à praça em frente aos Jerónimos. De lá, tomei o ônibus (ih, desculpa, o autocarro) até Santos, meu porto seguro, para esperar as surpresas da noite.

4 comentários:

Orlando Gonçalves disse...

Belém e os Jerónimos são autênticas joias da coroa, é uma zona da cidade muito bonita, mas que aos poucos querem destruir. Aos poucos vão fazendo mais e mais construções junto á zona ribeirinha, veja-se agora o caso junto ao CCB do mamarracho que estão a fazer, um grande hotel. Chamam-lhe o progresso. Mas que grande progresso este que aos poucos está a tapar a nossa vista com betão deixando as musas do Tejo, que tanto encantam os nossos poetas, só para serem vistas para quem possa pagar habitações de luxo e hoteis caros. Este é uma cidade que aos poucos vão destruindo, sempre ao sabor da especulação himobiliária.Espero que a mão do homem não destrua tudo aquilo que ainda de bonito têm esta cidade.
Continua com os teus pots, que vou lendo com alegria, e satisfação e desculpa o desabafo, só que existem coisas que não consigo conter e me deixam de veras amargurado. Eu deste lado vou continuando levantando a voz contra estas injustiças.
Um Beijão

Anônimo disse...

Andei agora por lá...por esse pedaço de terra preso ao Tejo :)





SombrArredia

Luiza de Marilac disse...

Quanta poesia na sua descrição!! Senti também toda essa magia ao passear por todos esses lugares tão fantásticos!

Adorei a sensibilidade do teu relato.

Luiza de Marilac
Fortaleza-CE

Maurette disse...

Obrigada, Luiza, fico feliz. Volte sempre a este Portugal, onde procurarei deixar o tempo todo um fiozinho que nos liga à terrinha. Mesmo sem ser descendente, apaixonei-me, fazer o quê, né? Um abraço e um ótimo 2008.